Relatório 02 · Saúde no DF · dois modelos de gestão

Instituto de Gestão Estratégica de Saúde e Hospital da Criança: dois modelos pagos pela SES

O achado, em uma frase: os dois hospitais que o governo do DF paga para serem geridos de fora da administração direta não são prestadores de contas iguais — um publica balanço, demonstrações e prestação de contas, e seu auditor faz ressalva todos os anos desde que o instituto existe; o outro não publica balanço nenhum na página que lê ao público.

Como este relatório foi feito, o que entra em cada número e o que a fonte não publica está ao pé da página.1112

O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (IGES-DF) e o Hospital da Criança de Brasília (HCB) recebem recursos da Secretaria de Saúde para operar hospitais públicos fora da administração direta. Este relatório põe lado a lado o que os dados públicos já coletados pelo projeto saudedf mostram sobre os dois: tamanho, produção, contas, auditoria e transparência. Onde a fonte não publica o dado, a lacuna fica declarada e não é estimada.

5 de 5balanços do IGES-DF (2019–2023) com opinião com ressalva do auditor independente2018, ainda como Instituto Hospital de Base: sem ressalva
63ºtermo aditivo ao contrato de gestão 001/2018 do IGES-DF, o mais alto publicadoHCB: 62º termo aditivo ao contrato 076/2019
6 → 13unidades públicas de pronto atendimento no cadastro federal, dez/2020 → dez/20224 em 2012; 13 em ago/2026
3/3 · 1/3tipos de documento de prestação de contas localizados: IGES-DF · HCBmedida própria, não índice oficial

1. Os dois modelos

O Hospital de Base (HBDF) passou a ser gerido pelo Instituto Hospital de Base, depois IGES-DF, e o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) registra a troca: até 2017 o hospital constava sob a raiz de CNPJ da Secretaria de Saúde; a partir de dezembro de 2018, sob a raiz 28.481.233 (IGES-DF), natureza jurídica 3077, serviço social autônomo. O Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) fez a mesma passagem em 2020. O HCB continua cadastrado no CNES sob a raiz de CNPJ da Secretaria (00.394.700), natureza 1023, embora seja operado por contrato de gestão (076/2019).

UnidadeNatureza jurídica no CNES (ago/2026)Raiz do CNPJ no CNESDesde
Hospital de Base (HBDF)3077 — serviço social autônomo28481233 (IGES-DF)2018
Hospital Regional de Santa Maria (HRSM)3077 — serviço social autônomo28481233 (IGES-DF)2020
Hospital da Criança de Brasília (HCB)1023 — órgão público do Poder Executivo estadual/DF00394700 (SES-DF)—

“Desde” é o primeiro mês de dezembro em que o cadastro mostra a nova entidade responsável. A fonte e os campos lidos estão ao pé da página.1

Lacuna declarada — governançaA composição dos conselhos de administração do IGES-DF e do HCB, os estatutos e o assento do secretário de Saúde em cada conselho não estão entre os dados coletados pelo saudedf. A diferença de governança entre os dois modelos, central na pergunta, não pode ser medida aqui.
Lacuna declarada — trânsito de dirigentesA passagem de dirigentes entre o IGES-DF e cargos de secretário ou subsecretário da SES exigiria nomes e datas de nomeação. O Diário Oficial (DODF) foi coletado só como índice, e este relatório não publica nomes. Não há medida possível com os dados disponíveis.

2. Tamanho: leitos e médicos

HBDFHRSMHCB
03006009001.20020052008201120142017202020232026
Leitos SUS por hospital (enfermaria, cuidados intermediários e UTI somados), 2005–2026.
AnoHBDF leitosHBDF UTIHRSM leitosHRSM UTIHCB leitosHCB UTI
2012880293595022—
2013848292455022—
2014848293285022—
2015679293775017—
2016679293355017—
2017626323975017—
2018666324085070—
2019595323285815030
202076911754411819030
2021734814804920848
2022681683446019838
2023718763776019838
2024888865216022056
2025888865216022056
2026759865236022056

O travessão quer dizer que o hospital não tinha leito público registrado naquele ano. A fonte está ao pé da página.2

Médicos com vínculo registrado no CNES

Dezembro deHBDFHRSMHCBPronto atendimento público (soma)
201293737213470
2013702393143165
2014797394155217
2015769340171145
2016891346189189
2017864354192190
2018956469216150
20191.162475268250
20201.278522338281
20211.309545352263
20221.299584358365
20231.345665395435
20241.367744438510
20251.140757431525

Um médico com vínculo em duas unidades é contado nas duas, e nenhum nome sai da análise. A fonte e a forma de contar estão ao pé da página.3

Lacuna declarada — tempo de formadoO CNES não registra o ano de formatura, e os empregados do IGES-DF não estão na folha do GDF que o saudedf coleta. Se as unidades geridas pelo IGES-DF são ocupadas por médicos recém-formados não é mensurável com estes dados.

3. Produção e desfecho das internações

O Sistema de Informações Hospitalares (SIH) registra cada internação paga pelo SUS, com o CNES do hospital. Em 2024, o HBDF fez 27.253 internações, o HRSM 28.680 e o HCB 7.978, de 248.088 no DF. O HBDF fez 22.725 internações em 2017, último ano sob gestão direta.

HBDFHRSMHCB
08.00016.00024.00032.000200820102012201420162018202020222024
Internações SUS (AIH) por ano de competência, 2008–2024.
HBDFHRSMHCBDF, todas as unidades
0%6%12%18%24%200820102012201420162018202020222024
Percentual das internações com uso de UTI (campo MARCA_UTI diferente de 00).
AnoUnidadeInternaçõesÓbitos (%)Permanência média (dias)Com UTI (%)Valor médio da AIH (R$ nominais)
2012HBDF16.6695,911,37,3R$ 1.770,20
2012HRSM9.5656,97,512,1R$ 1.475,79
2012HCB2390,02,70,0R$ 294,08
2012Demais do DF158.9422,56,43,0R$ 853,68
2017HBDF22.7256,37,74,4R$ 1.506,54
2017HRSM9.6894,18,54,6R$ 1.003,75
2017HCB1.4560,12,40,0R$ 528,69
2017Demais do DF162.8342,75,63,1R$ 985,17
2019HBDF24.6116,47,85,6R$ 1.918,51
2019HRSM14.5843,06,94,1R$ 971,10
2019HCB5.6301,05,70,2R$ 710,54
2019Demais do DF185.7672,55,43,2R$ 939,28
2022HBDF24.2456,48,39,0R$ 2.628,24
2022HRSM20.2813,66,35,7R$ 1.283,14
2022HCB7.0001,46,921,3R$ 2.038,69
2022Demais do DF180.5372,65,24,5R$ 1.156,23
2024HBDF27.2536,57,712,6R$ 3.169,30
2024HRSM28.6802,65,35,5R$ 1.174,22
2024HCB7.9781,47,318,4R$ 2.344,87
2024Demais do DF184.1772,55,46,0R$ 1.370,00

O total do DF em cada ano fecha, internação por internação, com a série do próprio projeto. Os valores são nominais, sem correção pela inflação; a fonte e os campos lidos estão ao pé da página.4

Leia com cuidadoMortalidade e permanência não comparam a qualidade dos hospitais entre si: o HCB atende crianças em alta complexidade, o HBDF é referência em trauma e alta complexidade adulta, e o perfil dos pacientes muda cada número. A comparação que o dado sustenta é a do mesmo hospital antes e depois da troca de gestão.
Lacuna declarada — fila de UTIA lista de espera por leito de UTI do DF é publicada pela SES num painel (InfoSaúde) que o projeto não conseguiu extrair. Se a gestão das UPAs pressiona essa fila não é mensurável com estes dados.

4. As unidades de pronto atendimento (UPA)

O CNES tinha 4 unidades públicas de pronto atendimento no DF em 2012, 6 em 2020 e 13 em 2022, número que se mantém em 13 em agosto de 2026. O índice de contratos do IGES-DF publica contratos de gestão para 7 UPAs, assinados em 2021.

Unidades públicas de pronto atendimento
0481216050607080910111213141516171819202122232425
Estabelecimentos do tipo 73 (pronto atendimento) com natureza jurídica pública, dezembro de cada ano.
Contrato de gestão do IGES-DF (título publicado)
Contrato de Gestão Nº 045458/2021 – UPA de Planaltina
Contrato de Gestão Nº 045547/2021 – UPA de Vicente Pires
Contrato de Gestão Nº 045549/2021 – UPA de Brazlândia
Contrato de Gestão Nº 045549/2021 – UPA de Ceilândia II
Contrato de Gestão Nº 045549/2021 – UPA de Gama
Contrato de Gestão Nº 045549/2021 – UPA de Paranoá
Contrato de Gestão Nº 045549/2021 – UPA de Riacho Fundo II

As duas fontes — o cadastro federal e o índice de contratos do próprio instituto — estão ao pé da página.5

Lacuna declarada — quem gere cada UPANo CNES, as UPAs continuam cadastradas sob a raiz de CNPJ da SES, e não sob a do IGES-DF. O cadastro não diz qual UPA é operada pelo instituto; a única fonte é o título dos contratos acima.

5. Contas e auditoria

O IGES-DF publica demonstrações contábeis e relatórios de auditor independente. Desde o exercício de 2019, todos os pareceres localizados são com ressalva. As razões abaixo são as que o próprio auditor escreveu na base da ressalva.

ExercícioOpinião do auditorBase da ressalva (resumo das palavras do auditor)
2018sem ressalva—
2019com ressalvaOperação Medusa (Polícia Civil do DF), contratos de 2018; estoques sem inventário físico
2020com ressalvaOperação Medusa (Polícia Civil do DF), contratos de 2018; estoques sem inventário físico
2021com ressalvaOperação Medusa (Polícia Civil do DF), contratos de 2018; estoques sem inventário físico
2022com ressalvaOperação Escudeiro (Polícia Civil do DF), renovação de contrato; estoques sem inventário físico
2023com ressalvaOperação Escudeiro (Polícia Civil do DF), renovação de contrato; estoques sem inventário físico

A ressalva registra uma limitação do auditor, não uma conclusão de irregularidade. A fonte está ao pé da página.6

ExercícioPatrimônio líquidoEstoques
2018R$ 15.967.370,59R$ 18.956.336,32
2019R$ -45.749.115,59—
2020——
2021—R$ 43.959.076,22
2022R$ -129.721.162,12R$ 72.510.235,06
2023R$ -87.963.335,23R$ 89.087.283,30

O travessão quer dizer que os próprios documentos divergem entre si naquele exercício, e então o valor não é publicado. A fonte está ao pé da página.7

Lacuna declarada — demonstrações do HCBO saudedf não localizou demonstrações contábeis do HCB na página de transparência que lê (hcb.org.br). Não há como comparar o balanço dos dois.

6. Quanto o GDF pagou a cada um

O Portal da Transparência do GDF lista as ordens bancárias por credor. Somadas por ano, as pagas ao IGES-DF (CNPJ 28.481.233/0001-72) e ao Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (ICIPE, CNPJ 10.942.995/0001-63), que opera o HCB, foram de R$ 1,12 bilhão e R$ 193 milhões em 2024. Dos R$ 7,64 bilhões pagos ao IGES-DF desde 2018, 99,8% saíram do Fundo de Saúde do DF.

IGES-DFICIPE (HCB)
04008001.2001.600201120142017202020232026
Ordens bancárias pagas pelo GDF a cada entidade, R$ milhões nominais por ano (2026: até a data da coleta).
AnoIGES-DF (R$)ICIPE — HCB (R$)
2011—R$ 15.185.491,81
2012—R$ 42.287.315,29
2013—R$ 35.067.619,56
2014—R$ 52.881.548,00
2015—R$ 79.605.651,56
2016—R$ 74.332.889,91
2017—R$ 109.627.917,96
2018R$ 115.361.603,91R$ 120.408.753,47
2019R$ 415.613.327,71R$ 185.359.566,16
2020R$ 709.521.963,56R$ 252.875.390,79
2021R$ 996.491.579,18R$ 284.483.164,07
2022R$ 1.240.031.141,76R$ 297.634.140,05
2023R$ 1.003.756.057,28R$ 59.295.982,43
2024R$ 1.115.905.723,20R$ 193.111.151,00
2025R$ 1.178.948.550,58R$ 229.605.529,41
2026R$ 862.421.666,22R$ 143.437.496,29

O valor é o do pagamento menos os cancelamentos, nominal e sem correção; o travessão quer dizer que não houve pagamento ao credor naquele ano. A consulta, a data da coleta e a ligação entre o instituto do câncer e o hospital estão ao pé da página.8

Leia com cuidadoO pagamento ao ICIPE cai de R$ 298 milhões em 2022 para R$ 59 milhões em 2023 e volta a R$ 193 milhões em 2024. A consulta foi repetida com outras grafias do credor, sem outro registro. O portal não explica a queda, e este relatório não a estima. O valor pago também não mede o custo de um leito ou de uma internação: o IGES-DF opera dois hospitais e UPAs, e o pagamento cobre tudo o que cada contrato inclui.
Fora do alcance — desvio de recursosDesvio é uma conclusão de investigação ou de julgamento, não um dado. Este relatório não o mede. O que os documentos públicos mostram está acima: as ressalvas do auditor e as operações que ele cita.

7. Transparência e contratos

O projeto procurou os mesmos três tipos de documento nas páginas de transparência de cada entidade.

DocumentoIGES-DFHCB
Contrato de gestãolocalizadolocalizado
Demonstrações contábeislocalizadonão localizado
Prestação de contas periódicalocalizadonão localizado

Esta é uma medida do próprio projeto, não um índice oficial: “não localizado” quer dizer ausente nas páginas que o projeto lê, e não prova de que o documento não exista. A fonte está ao pé da página.9

Aditivos

O contrato de gestão 001/2018 do IGES-DF chegou ao 63º termo aditivo publicado; o índice do instituto tem 63 termos aditivos, 15 apostilamentos e 26 extratos. O HCB publica 121 documentos de termo aditivo, até o 62º, 45 deles vinculados a emendas parlamentares.

As duas fontes são os índices de documentos publicados pelas próprias páginas de transparência, e estão ao pé da página.10

Notas

De onde veio cada número, como foi lido e o que ainda falta. O texto acima não precisa destas notas para ser entendido; elas estão aqui para quem quiser conferir.

  1. Fonte: DATASUS, CNES, arquivos ST (estabelecimentos) e PF (profissionais) do DF, competência de dezembro de cada ano (2026: agosto); campos CNES, CPF_CNPJ e NAT_JUR. “Desde” = primeiro dezembro em que a raiz 28481233 aparece. ↩
  2. Fonte: tabela leitos_serie_cnes do saudedf (DATASUS, CNES, arquivos LT do DF). “—” = sem leito SUS registrado no ano. ↩
  3. Fonte: DATASUS, CNES, arquivos ST (estabelecimentos) e PF (profissionais) do DF, competência de dezembro de cada ano (2026: agosto); profissionais com CBO 225 (médicos), contados por CNS distinto em cada estabelecimento. Um médico com vínculo em duas unidades conta nas duas. Nenhum nome sai da análise. ↩
  4. Fonte: DATASUS, SIH/SUS, AIH reduzida (RD), DF, arquivos RDDF<aamm>.dbc de 01/2008 a 12/2024, agregados por CNES do estabelecimento. Campos MORTE, DIAS_PERM, MARCA_UTI e VAL_TOT. O total do DF por ano bate, internação por internação, com a tabela sih_uti_serie do saudedf. Valores nominais, sem correção. ↩
  5. Fontes: DATASUS, CNES, arquivos ST (estabelecimentos) e PF (profissionais) do DF, competência de dezembro de cada ano (2026: agosto), campo TP_UNID; tabela igesdf_contratos_gestao do saudedf (índice de documentos de igesdf.org.br). ↩
  6. Fonte: tabela opinioes_auditoria do saudedf; relatórios de auditor independente publicados em igesdf.org.br (2018: Instituto Hospital de Base). A ressalva registra uma limitação do auditor, não uma conclusão de irregularidade. ↩
  7. Fonte: tabela demonstracoes_serie do saudedf, lida dos balanços do IGES-DF. “—” = os documentos divergem entre si para aquele exercício, e o valor não é publicado. ↩
  8. Fonte: Portal da Transparência do GDF, consulta “Pagamentos” (ordens bancárias por credor), endpoint /api/despesa/ob-por-credor, exercícios 2009–2026, coletado em 23/09/2026. Valor final = valor do evento menos cancelamentos. Valores nominais, sem correção. “—” = nenhuma ordem bancária ao credor no ano. O ICIPE aparece como parte dos contratos de gestão que o próprio HCB publica (tabela hcb_contratos do saudedf, ex.: “termo aditivo CG SES ICIPE”). ↩
  9. Fonte: tabelas transparencia_matriz e transparencia_indice_publicacao do saudedf. Medida própria do projeto, não um índice oficial. “Não localizado” quer dizer ausente nas páginas que o projeto lê, não prova de que o documento não existe. ↩
  10. Fontes: tabelas igesdf_contratos_gestao e hcb_contratos do saudedf (índices de documentos das duas páginas de transparência). ↩
  11. Este relatório é independente do dossiê do projeto saudedf e usa dados que o projeto já coletou, lidos sem alteração, e uma consulta própria ao Portal da Transparência do GDF (seção 6), feita só para os dois credores, sem pessoas físicas. Os microdados do SIH e do CNES foram descompactados numa pasta temporária e agregados por estabelecimento; nenhum arquivo do saudedf foi alterado. Nenhum nome, CPF ou CNS sai da análise. ↩
  12. A pergunta que motivou o relatório inclui pontos que os dados públicos não alcançam: governança dos conselhos, trânsito de dirigentes, perfil de formação dos médicos, fila de UTI e desvio de recursos. Cada um aparece acima como lacuna, com o motivo. Nada é estimado. O código que gera cada número está em relatorios-saude-df/analise. ↩