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Saúde no DF · relatório 06

A população como denominador

Quase tudo o que se diz sobre saúde pública é dito "por habitante": leitos por mil habitantes, médicos por mil habitantes, gasto por morador. Essa forma de falar esconde uma escolha que quase nunca é discutida — por qual número de habitantes se divide. Esta página mostra que a escolha não é um detalhe: trocar o divisor pode mudar em um terço o resultado de uma região.

E começa por uma correção. A lista de população por região administrativa que este projeto usava no início estava digitada à mão dentro de um programa, sem nenhum documento por trás. Uma das suas linhas, a do Lago Norte, estava errada por 9.399 pessoas — e o Lago Norte fica justamente na região de saúde que concentra os leitos do Distrito Federal, de modo que o erro inflava exatamente o número em que o projeto mais se apoiava.1

O que estava errado

Conferida contra o censo oficial, a lista digitada divergia em três linhas:

RAliteralIBGE Censo 2022diferença
Lago Norte32.37941.778+9.399 (+29,0 %)
Planaltina179.960179.989+29
Sobradinho72.27372.244−29
as outras 30conferem exatamente
soma2.807.9822.817.381+9.399

Lago Norte responde sozinha por toda a diferença. As outras duas divergências são de vinte e nove pessoas cada e se anulam, porque as duas regiões ficam na mesma região de saúde.2

A lista errada continua guardada de propósito, lado a lado com a certa, para que qualquer pessoa possa comparar as duas e refazer a conferência.3

As duas populações que este projeto carrega

Não há uma resposta única e certa. Existem duas contagens oficiais, feitas por dois órgãos, em dois anos, com dois critérios — e escolher entre elas é decisão de quem escreve a análise, não de quem coleta o dado. As duas ficam guardadas, e quem divide por uma delas é obrigado a dizer qual usou.

populacaopopulacao_pdad
FonteIBGE, Censo Demográfico 2022IPEDF/Codeplan, PDAD-A 2024
Comoagregado 9923, variável 93, nível N11 (subdistrito), município 5300108microdados públicos de morador, SOMA(peso_mor) por localidade
Data de referência2022-07-312024
Cobertura33 das 35 RAs — Arapoanga e Água Quente são posteriores à malha do Censo 2022as 35 RAs
Quem contapopulação totalapenas população urbana
Total2.817.3812.861.057 urbana (+ 121.759 rural não atribuída = 2.982.816)
Conferênciasoma exatamente igual ao total do município publicado pelo IBGEreproduz os três subtotais publicados pelo IPEDF — urbano, rural e total — dentro de 0,005 %

A pesquisa distrital conta só a população urbana, e isso não é uma miudeza. Os moradores da zona rural do Distrito Federal estão numa linha separada, que não é uma região administrativa e não é somada a nenhuma.4

E o total do Distrito Federal não protege a conta de cada região — é aqui que a troca de divisor engana. No conjunto do território, as duas contagens ficam a pouco mais de um ponto percentual uma da outra.5 Região por região, não:

RACenso 2022PDAD 2024desvioinflação da razão
Planaltina179.989121.856−32,3 %×1,48
Brazlândia55.56141.859−24,7 %×1,33
Paranoá63.92355.551−13,1 %×1,15
Fercal10.2689.141−11,0 %×1,12
Águas Claras128.486141.872+10,4 %×0,91

Planaltina é caso à parte, e por outro motivo: um pedaço dela virou região administrativa própria depois do censo, então as duas colunas não medem o mesmo território — o mesmo vale para o Recanto das Emas. Brazlândia, Paranoá e Fercal são o efeito rural puro: gente que mora na região e que uma das contagens não conta.

Uma conta de leitos por morador em Brazlândia feita pela contagem distrital sai um terço mais alta do que deveria.6 Por isso cada região carrega, na própria linha, o tamanho do seu próprio desvio: quem divide por aquela coluna lê o custo ali, e não numa média do Distrito Federal inteiro.

A contagem do censo também tem a sua ressalva: duas regiões administrativas novas não têm linha própria nele, porque foram criadas depois do mapa que ele usou. As pessoas estão contadas — dentro das regiões de origem.7

O terceiro número, e por que ele não entra na tabela

O plano de saúde do Distrito Federal declara um terceiro total de habitantes, maior que os dois, e foi esse o número que o operador escolheu como divisor para uma das análises. Ele não entra nesta tabela por um motivo simples: é um total do Distrito Federal inteiro e o plano não o reparte por região — nem por região administrativa, nem por região de saúde. Verificado no documento inteiro.8

O que a pesquisa distrital publica e o que não publica

Chegar à população por região pela pesquisa distrital passou por três caminhos. O que barrou cada um está registrado pelo tipo de obstáculo, e não como um "falhou" genérico:

RotaResultadoObstáculo
Os 35 relatórios PDF por RArecusadopublicados como imagem renderizada. Verificado no relatório do Plano Piloto: 8 fluxos com operadores de texto contra 68 XObjects de imagem; a extração por CMap ToUnicode, escrita com a biblioteca padrão, devolve a capa e a equipe técnica e nenhum número estatístico. Ler esses PDFs exigiria OCR, que é uma dependência, e adotar uma é decisão do operador
Microdados de domicíliorecusadopeso_dom é peso de domicílio, não de pessoa. SOMA(peso_dom × A01npessoas) devolve 3.438.531 contra os 2.982.658 publicados, com razões por RA que não são constantes (Ceilândia 1,17; Plano Piloto 1,21; Samambaia 1,26). Produzir um número por um método que o produtor não usou e chamá-lo de PDAD seria fabricar a fonte
Microdados de moradoraceitopeso_mor é o peso de expansão por pessoa que o próprio IPEDF publica. Reproduz os três subtotais publicados. É a rota que está no processamento próprio

Em resumo: os relatórios da pesquisa são publicados como fotografia de página, e ler número em fotografia exigiria um programa de reconhecimento de texto que este projeto não adotou; a planilha de domicílios responde a outra pergunta e usá-la daria um número que o próprio instituto não publica; a planilha de moradores é a que reproduz, uma por uma, as somas que o instituto divulga, e é a que está em uso.

Uma correção de percurso fica registrada, porque ela é a razão de esta tabela existir: ao planejar o trabalho, o arquivo de moradores não respondeu e concluiu-se que o caminho estava fechado. Na execução, o mesmo arquivo respondeu normalmente. A falha era passageira. O que devolveu o caminho foi a regra de reconferir toda suposição na hora de executar, em vez de copiá-la do plano.9

Os sites

O endereço da pesquisa distrital responde. Não é o mesmo endereço de outros três sites do instituto e do governo local que não respondem — e que este projeto registra como inalcançáveis. Um leitor daquele registro concluiria, com razão, que a pesquisa estava fora de alcance; esta seção existe para corrigir essa impressão.10

O efeito sobre o achado anterior

A tabela publicada no levantamento anterior — todos os leitos de todos os estabelecimentos em funcionamento — corrigida pelos dois divisores:

Região de saúdeleitosapuração de 2026-08-23 publicouIBGE 2022PDAD 2024
Central5.43416,1715,7315,07
Sul1.2304,804,804,81
Norte7762,252,252,35
Oeste9292,092,092,12
Sudoeste1.5151,901,901,81
Leste3311,081,081,12
Centro-Sul3030,930,930,88
DF10.5183,753,733,68

O levantamento anterior afirmou uma diferença de dezessete vezes entre a região com mais leitos por habitante e a com menos. Com o divisor corrigido a diferença encurta um pouco, e encurta um pouco mais pela contagem distrital.11 A afirmação continua verdadeira em qualquer leitura; o número exato que a acompanhava, não.

E a mesma tabela só com os leitos abertos ao SUS, que é o recorte que a análise seguinte usa:12

Região de saúdeleitos SUSliteral (errado)IBGE 2022PDAD 2024
Central2.5207,507,306,99
Sul9923,873,873,88
Oeste6921,561,561,58
Norte3751,091,091,13
Sudoeste6980,880,880,83
Leste2620,860,860,88
Centro-Sul730,220,220,21
DF5.6122,001,991,96

Só a região Central se move, porque só o Lago Norte mudava de tamanho.

O achado sobrevive, e a correção fica registrada em vez de absorvida. Entre a região com mais leitos abertos ao SUS por morador e a com menos há algo como trinta vezes de diferença, sob qualquer um dos três divisores.13 O formato do achado estava certo; um dos seus números não estava.

Notas

De onde veio cada número, como foi lido e o que ainda falta. O texto acima não precisa destas notas para ser entendido; elas estão aqui para quem quiser conferir.

  1. Nota de método da apuração de 2026-08-23. Toda razão leitos por 1.000 habitantes que este projeto publica divide por um número desta página. Até a apuração de 2026-08-23, esse número era um literal digitado dentro de um script, e uma de suas 33 linhas estava errada. processamento próprio traz 33 Regiões Administrativas com população, rotuladas Fonte: Censo IBGE 2022 / Processamento IPEDF - Codeplan. Não havia URL, página, nem artefato correspondente em dados/raw/ — a apuração de 2026-08-23 foi obrigado a registrar essa procedência na própria tabela, na coluna populacao_procedencia, porque não podia mostrar mais do que isso. O dado correto foi buscado na API do IBGE. ↩
  2. As divergências de Planaltina e Sobradinho são ±29 e ficam ambas na região Norte, onde se cancelam. Lago Norte fica na região de saúde Central — a região com mais leitos do DF, que sustenta o achado principal da apuração de 2026-08-23. ↩
  3. A reconciliação linha a linha está na tabela populacao_reconciliacao de saudedf.sqlite e é reproduzível: populacao_ra continua sendo carregada a partir do literal, de propósito, para que as duas possam ser comparadas por qualquer pessoa — a conferência que a apuração de 2026-08-23 não pôde fazer. ↩
  4. As 35 linhas por RA da PDAD são população urbana. Os moradores rurais do DF estão na localidade 5336, Área Rural, que não é uma Região Administrativa e não é atribuída a nenhuma. ↩
  5. No DF inteiro a PDAD fica ~1,6 % abaixo do Censo 2022. ↩
  6. Um leitos/1.000 de Brazlândia calculado sobre a coluna da PDAD sai 33 % alto. Por isso cada linha de ras_regioes carrega o seu próprio populacao_pdad_delta_pct. Arapoanga foi desmembrada de Planaltina depois do Censo 2022, e Água Quente do Recanto das Emas. ↩
  7. Arapoanga (49.067 pela PDAD) e Água Quente (11.306) não têm linha própria no Censo 2022: foram desmembradas de Planaltina e do Recanto das Emas depois da malha. Na coluna do IBGE, essas pessoas estão contadas — dentro das RAs de origem. ↩
  8. O PDS 2024-2027, p. 36, declara 3.130.014 habitantes, e foi o número que o operador escolheu em 2026-08-23 como denominador da apuração de 2026-08-23. É um total do DF e o PDS não publica nenhuma desagregação dele. Portanto a apuração de 2026-08-23 tem uma escolha real a fazer, e ela está registrada em plano/apuração de 2026-08-23.plano.md, não decidida aqui. ↩
  9. Ao redigir o plano, moradores_60wwMwo.zip respondeu HTTP 404 e o plano concluiu que a rota estava fechada. Na execução o mesmo arquivo respondeu 200 e 4,5 MB — o 404 foi transitório, provavelmente cache frio da CDN. O critério (d) da apuração de 2026-08-23 exigia reverificar as suposições 4-6 na execução em vez de copiá-las do plano, e foi exatamente isso que devolveu a rota. A suposição estava errada e a tabela existe por causa da reverificação. ↩
  10. pdad.ipe.df.gov.br responde 200. Não é o mesmo host que ipedf.df.gov.br e ipe.df.gov.br (recusa de conexão / timeout) nem que dadosabertos.df.gov.br (sem DNS), que a declaração de realidade do host em o registro de fontes deste projeto registra como inalcançáveis. ↩
  11. A tabela que a apuração de 2026-08-23 publicou cobre todos os leitos de estabelecimentos ativos, competência 202607. O apuração de 2026-08-23 afirmou um espalhamento de dezessete vezes entre a Central e a Centro-Sul; com o denominador corrigido são 16,9 vezes — e 16,2 vezes pela PDAD. ↩
  12. O recorte de leitos SUS é o que a apuração de 2026-08-23 usa, por decisão do operador. ↩
  13. A Central continua com algo como 33 vezes a razão da Centro-Sul, sob qualquer um dos três denominadores. ↩